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Maria Valdirene, a “Morena”: da violência e da pobreza à liderança de centenas de famílias no campo

06 de Setembro de 2026 às 21:57
7 min de leitura
Maria Valdirene, a “Morena”: da violência e da pobreza à liderança de centenas de famílias no campo

Uma história de luta, sobrevivência e resistência que transformou uma agricultora baiana em referência na organização comunitária

EXCLUSIVO A história de Maria Valdirene, conhecida carinhosamente como Morena, é marcada por episódios de extrema dificuldade, violência, abandono e pobreza, mas também por uma trajetória de resistência e liderança. Filha de agricultores e nascida na Fazenda Barriguda, em Irecê, na Bahia, Morena conheceu desde cedo a realidade do campo e aprendeu, dentro de uma família simples, o valor do trabalho e da terra.

Aos 13 anos, sua vida tomou um rumo que mudaria completamente seu destino. Segundo seu relato, foi prometida em casamento pela família a um trabalhador rural de confiança de seu pai. Para viabilizar a união, sua data de nascimento teria sido alterada.

O casamento deu início a uma sequência de acontecimentos traumáticos. Pouco depois, Morena deixou a casa dos pais e foi morar em outra fazenda levando apenas a roupa do corpo. Durante a primeira gravidez, sofreu um acidente que provocou a perda do bebê. Enquanto estava internada, foi abandonada pelo marido e precisou enfrentar sozinha a fome, a insegurança e a falta de apoio.

Entre a Bahia e São Paulo

Em busca de uma nova oportunidade, seguiu para São Paulo, onde foi acolhida por um irmão. Dois anos depois, retornou à Bahia a pedido dos pais para tentar reconstruir o casamento.

Vieram os filhos, mas, segundo seu relato, a relação continuou marcada por abandono, dificuldades financeiras e episódios de violência. Em Barreiras, na Bahia, trabalhou como empregada doméstica para sustentar a família.

A trajetória de Morena também passou por Dianópolis, no atual Tocantins, onde nasceu seu terceiro filho. Novamente, ela se viu diante do abandono enquanto o marido, segundo seu relato, desaparecia por longos períodos e se envolvia com atividades criminosas.

A chegada a Brasília e um novo capítulo

Em 1999, sem condições financeiras para sustentar os três filhos, Morena decidiu mudar-se para Brasília em busca de uma vida melhor.

Foi acolhida por uma família solidária e acabou reencontrando o marido, que, segundo seu relato, já mantinha outro relacionamento. A convivência teria sido acompanhada por novas humilhações, ameaças e tentativas de controle.

No ano seguinte, passou a viver no assentamento conhecido como **Vila do Boa**. Segundo Morena, o relacionamento foi marcado por agressões físicas e psicológicas, ameaças e privações.

Diante da situação, decidiu romper novamente e reconstruir sua vida.

Do sofrimento à liderança

Em 2001, Morena chegou ao Assentamento Aguilhada, onde iniciou uma das fases mais importantes de sua trajetória.

Passou a atuar na organização das famílias e tornou-se apontadora da Frente Nacional de Luta (FNL). Sua atuação comunitária ganhou força e ela passou a ser conhecida como “Morena do Grito da Terra da Aguilhada”.

A liderança nasceu da própria experiência. Tendo enfrentado a pobreza e a violência, Morena passou a dedicar parte de seu trabalho à defesa de famílias que também viviam em situação de vulnerabilidade.

Mesmo depois de conquistar reconhecimento, afirma ter continuado enfrentando perseguições relacionadas ao antigo relacionamento.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu quando, segundo seu relato, permaneceu durante anos sob forte controle e violência. A situação teria chegado ao fim depois que um de seus filhos, ainda criança, conseguiu denunciar o que acontecia.

Recomeçar do zero

Livre da violência, Morena precisou reconstruir a própria vida.

Recebeu auxílio da Sociedade São Vicente de Paulo, os Vicentinos, passou por períodos de extrema pobreza e chegou a viver em situação de rua.

Mesmo com poucos recursos, afirma que continuava ajudando outras pessoas que enfrentavam dificuldades.

Também enfrentou a perda temporária da guarda dos filhos. A batalha, porém, não terminou ali. Morena buscou a Justiça e lutou até conseguir reunir novamente sua família.

A agricultora que virou comerciante e líder comunitária

Determinada a mudar sua realidade, Morena tornou-se comerciante. Abriu uma mercearia, administrou um pequeno bar e conseguiu alugar uma casa para oferecer melhores condições aos filhos.

A ligação com a agricultura, entretanto, nunca foi abandonada.

Mesmo trabalhando no comércio, manteve sua relação com a terra e com as famílias do assentamento. Seu sonho era construir uma chácara produtiva e continuar trabalhando com a agricultura.

Ao mesmo tempo, seu trabalho comunitário cresceu.

Morena passou a exercer liderança sobre um assentamento com aproximadamente 600 famílias, tornando-se conhecida pela defesa dos trabalhadores rurais, pela organização comunitária e pelo apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade.

A criação de uma associação e os conflitos

Em 2017, decidiu criar uma associação com o objetivo de fortalecer a organização das famílias do assentamento.

Segundo Morena, no ano seguinte começou a enfrentar forte oposição de um grupo que, conforme seu relato, estaria envolvido com ocupação irregular e comercialização ilegal de terras públicas pertencentes ao INCRA.

Ela afirma ter recusado qualquer participação em práticas que considerava ilegais e mantido sua posição em defesa das famílias e da legalidade.

Depois disso, segundo seu relato, começaram as ameaças.

25 dias de cárcere, segundo relato

Em um dos momentos mais graves de sua trajetória, Morena afirma ter sido mantida em cárcere privado por aproximadamente 25 dias.

Segundo seu relato, durante esse período sofreu ameaças e diferentes formas de violência com o objetivo de fazê-la entregar o controle da associação.

Ela conta que conseguiu escapar durante a noite juntamente com um companheiro.

Inicialmente, afirma que encontrou dificuldades para registrar a ocorrência. Posteriormente, procurou o Ministério Público e apresentou sua denúncia.

De acordo com o relato de Morena, as investigações realizadas pelos órgãos competentes, incluindo a Delegacia Especial de Proteção ao Meio Ambiente (DEMA), resultaram na prisão, em 2019, de integrantes do grupo investigado.

Uma nova ameaça em 2019

Ainda em 2019, Morena relata ter vivido outro episódio extremo.

Segundo ela, um homem teria sido contratado para tirar sua vida, mas desistiu da ação e acabou se tornando seu companheiro.

O episódio, marcado pelo medo e pela imprevisibilidade, tornou-se mais um capítulo de uma trajetória que já havia sido atravessada por violência, ameaças e perseguições.

Apesar disso, Morena afirma que nunca abandonou sua atuação em defesa das famílias vulneráveis.

Uma vida transformada em luta

A trajetória de Maria Valdirene, a Morena, ultrapassa a história pessoal de uma mulher que enfrentou inúmeras adversidades.

É também a história de alguém que transformou experiências de sofrimento em motivação para lutar por outras pessoas.

Da infância simples na zona rural de Irecê à liderança de centenas de famílias, Morena percorreu um caminho marcado por pobreza, violência, abandono, perseguições e recomeços.

Sua atuação passou a ser associada principalmente à defesa dos trabalhadores rurais, da agricultura familiar, das mulheres em situação de vulnerabilidade e das comunidades que buscam melhores condições de vida.

Hoje, Morena continua afirmando sua disposição de atuar em defesa dos direitos sociais e das comunidades vulneráveis.

Sua história é, sobretudo, um relato de resistência: uma mulher que, depois de enfrentar algumas das situações mais difíceis que alguém pode viver, encontrou na organização comunitária uma forma de transformar a própria história e contribuir para a vida de outras famílias.

EXCLUSIVO Uma trajetória de luta, coragem e superação que merece ser conhecida.

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